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Como o Vale do Silício levou à sala de aula a programação de computadores

Kirill Kudryavtsev – 17.out.2016/AFP

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

NATASHA SINGER

DO “NEW YORK TIMES”

04/07/2017 09h00

Numa reunião de titãs da tecnologia promovida na Casa Branca na semana passada, Timothy Cook , o executivo-chefe da Apple, transmitiu ao presidente Donald Trump uma mensagem muito clara sobre como as escolas públicas podem atender melhor às necessidades do país. Para ajudar a solucionar “o deficit enorme de profissionais especializados que temos hoje”, ele disse, o governo deveria fazer sua parte para assegurar que os estudantes aprendam programação de computadores.

“A programação deveria ser exigida em todas as escolas públicas”, disse o empresário ao presidente.

O caso do presidente da Apple foi apenas o mais recente de uma empresa de tecnologia defendendo que as escolas ofereçam cursos de programação. Mas o Vale do Silício já está promovendo essa agenda mesmo sem o apoio de Trump, graças em grande medida ao sucesso de marketing da organização sem fins lucrativos Code.org , que tem o apoio do setor.

A Code.org foi fundada em 2012 por Hadi Partovi, que investiu no Facebook e no Airbnb, e seu irmão gêmeo, Ali Partovi, que investiu na Zappos e no Dropbox. A organização ficou conhecida inicialmente por usar um vídeo viral para alimentar a demanda popular por aulas de programação. Agora seu objetivo é fazer com que a ciência da computação seja ensinada em todas as escolas públicas dos Estados Unidos.

Em nosso mundo movido pela tecnologia, argumenta Hadi Partovi, a ciência da computação se tornou tão essencial para os estudantes quanto leitura, escrita e matemática.

A programação de computadores também é essencial para as empresas de tecnologia americanas, que têm alto grau de dependência de engenheiros estrangeiros. Os esforços de Trump para limitar a imigração tornam a agenda da Code.org ainda mais atraente para a indústria nacional.

Em poucos anos, a Code.org obteve mais de US$ 60 milhões da Microsoft, do Facebook, do Google e da Salesforce, além de fundações e executivos individuais do setor de tecnologia. Ela ajudou a persuadir duas dúzias de Estados a modificar suas leis e políticas do ensino, disse Partovi, ao mesmo tempo criando aulas gratuitas de introdução à programação, chamadas A Hora do Código, que já foram seguidas por mais de 100 milhões de estudantes pelo mundo afora.

Ao longo do caminho, a Code.org emergiu como um novo protótipo da reforma educacional buscada pelo Vale do Silício: uma entidade hábil em fazer uso de mídias sociais e que faz campanha por mudanças na política educacional, desenvolve currículos, oferece aulas de programação on-line e forma professores de programação, atuando em quase todas as facetas da cadeia de fornecimento do ensino.

“A Code.org usa uma abordagem em múltiplas frentes”, disse Amy Klement, sócia da Omidyar Network, uma organização de investimento filantrópico criada pelo fundador do eBay, Pierre Omidyar, e sua mulher, Pam, e que já doou US$ 5,5 milhões à Code.org. “É algo ímpar, é um modelo que eu gostaria muito de ver reproduzido.”

CONFLITO DE INTERESSES

Mas a atuação em níveis múltiplos da Code.org também levanta a questão sobre a influência do Vale do Silício sobre as escolas públicas para atender a seus próprios interesses –no caso, sua necessidade de engenheiros de software– sem se submeter a muita fiscalização.

“Se eu fosse um legislador estadual, buscaria saber mais sobre as motivações” da entidade, comentou Sarah Reckhow, professora assistente de ciência política na Universidade Michigan State. “Ela quer investimentos públicos em um conjunto de conhecimentos dos quais ela própria precisa em seu ramo de atuação.”

Partovi, 44, disse que apenas quer dar aos estudantes a oportunidade de desenvolver os mesmos conhecimentos que ajudaram ele e seus investidores a alcançar sucesso na vida. Ele emigrou do Irã para os EUA com sua família quando era criança, estudou ciência da computação em Harvard e, mais tarde, vendeu à Microsoft, supostamente por US$ 800 milhões, uma start-up de reconhecimento de voz que ajudou a fundar.

“Esse sonho se torna muito menos acessível se a pessoa estuda em uma das escolas americanas onde nem sequer lhe é dito que ela poderia trabalhar nessa área”, explicou Partovi.

Mesmo assim, ele admitiu que a indústria de tecnologia é movida em parte por seus interesses próprios. “É muito difícil para quem comanda uma empresa de tecnologia contratar e manter engenheiros”, ele explicou.

Hoje, a Code.org é uma das maiores provedoras de aulas on-line gratuitas de programação e de currículos de ciência da computação. A entidade ofereceu treinamento a mais de 57 mil professores, disse Partovi.

A ascensão da Code.org coincide com uma campanha muito mais ampla da indústria de tecnologia para remodelar as escolas primárias e secundárias americanas, dotando-as de computadores e aplicativos de estudos. Estima-se que o mercado chegará a US$ 21 bilhões até 2020.

No ano passado, a Apple lançou um aplicativo gratuito, o Swift Playgrounds , para ensinar programação básica na linguagem de programação Swift, lançada pela empresa em 2014.

A Apple apresentou em maio um curso de um ano de duração voltado a colégios secundários e faculdades públicas, para ensinar a criação de aplicativos em Swift. A empresa também vem financiando a Code.org, recebendo os eventos populares Hour of Code (Hora do Código), criados pela organização, em suas lojas.

Antes do surgimento da Code.org, a Fundação Nacional de Ciência trabalhou com especialistas da indústria e do ensino durante anos para desenvolver e difundir o ensino de ciência da computação nas escolas. Em 2009, por exemplo, um engenheiro da Microsoft lançou um programa chamado Teals, que coloca voluntários de empresas de tecnologia em escolas para ajudar a ensinar a disciplina.

VIRALIZANDO

Então chegou Partovi com a ideia de utilizar vídeos virais para gerar uma demanda de massa pelos cursos.

Partovi começou por convencer Bill Gates, o co-fundador da Microsoft, e Mark Zuckerberg, executivo-chefe do Facebook, a aparecer num curta-metragem promovendo o ensino da programação nas escolas. Em sua primeira semana no YouTube, o vídeo, intitulado “What Most Schools Don’t Teach” (o que a maioria das escolas não ensina), foi visto 9 milhões de vezes. Partovi contou que em 15 dias foi procurado por 20 mil professores.

Ele comparou a abordagem adotada pela Code.org à de start-ups como Airbnb e Uber. “A Airbnb está provocando mudanças no espaço das viagens, mas não é dona de hotéis”, ele disse. “Nós temos um modelo semelhante, provocando mudanças no ensino. Mas não dirigimos a escola e não contratamos os professores.”

Os contatos de Partovi com a elite, naturalmente, não atrapalharam.

Um dia no início de 2013, ele topou com seu vizinho, Bradford L. Smith, então executivo sênior da Microsoft, na rua em frente às casas deles, em Bellevue, Washington. Smith havia publicado pouco antes um estudo da Microsoft pedindo um plano federal para preparar estudantes para carreiras na ciência e engenharia da computação.

Partovi, por sua parte, esperava conseguir divulgação viral de uma mensagem dizendo que aprender programação poderia melhorar as perspectivas de emprego dos estudantes. Ensinar aos alunos habilidades que poderiam conduzi-los a empregos mais bem pagos “parece ser o tipo de ideia que pode ganhar a adesão de todos no país”, ele disse.

Partovi imediatamente convidou Smith para assistir a seu vídeo de programadores celebridades, que ainda não tinha sido lançado.

Pouco depois, a Microsoft tornou-se a maior doadora da Code.org. Bradford Smith, hoje presidente da Microsoft, comparou os esforços da entidade a uma iniciativa educacional lançada no final dos anos 1950. Na época, a União Soviética acabara de vencer a corrida espacial, lançando o Sputnik, e os EUA, num esforço para recuperar o tempo perdido, aprovara lei para financiar cursos de físicas e outras ciências.

“Nossa opinião é que a ciência da computação é para o século 21 o que a física foi para o século 20”, disse Smith.

Juntamente com grupos locais, contou Partovi, a Code.org e a Microsoft ajudaram a persuadir 24 Estados americanos a permitir que a ciência da computação ajude a compor os créditos de matemática ou ciências necessários para que os alunos concluam o ensino médio. Ao lado de organizações como Black Girls Code, Girls Who Code e Latina Girls Code, a Code.org vem trabalhando para tornar a disciplina acessível a estudantes de origens diversas.

EM CAUSA PRÓPRIA

Mas o movimento também defende uma legislação que pode conferir às empresas influência enorme sobre as escolas públicas, começando pelo jardim de infância, e o público tem pouca consciência do fato.

No ano passado, a Microsoft e a Code.org ajudaram a defender uma lei de ensino profissional no Idaho que, segundo avisaram pesquisadores educacionais, pode priorizar as necessidades da indústria, em detrimento dos interesses dos estudantes.

Entre outras coisas, segundo os pesquisadores, ela pode induzir escolas a ensinar linguagens específicas de programação de computadores que determinadas empresas necessitam, em lugar de abordagens mais amplas voltadas para a solução de problemas, algo que pode ser útil para os estudantes por toda a vida.

“É muito problemático quando a indústria decide o conteúdo e a direção seguida pelo ensino público”, disse Jane Margolis, pesquisadora sênior da Escola de Pós-Graduação em Estudos de Educação e Informação, da Universidade da Califórnia.

O texto da lei do Idaho diz em parte: “É essencial que os esforços para aumentar a instrução em ciência da computação, desde o jardim de infância até a esfera profissional, sejam movidos pelas necessidades da indústria e sejam desenvolvidos em parceria com a indústria”.

Quando um jornalista o informou sobre o texto do projeto de lei, Bradford Smith, da Microsoft, pareceu surpreso, dizendo que não o endossou. “O ensino público amplo não deve ser baseado prioritariamente nas necessidades de qualquer indústria específica, nem nas necessidades da indústria como um todo”, ele disse.

Partovi observou que a Code.org se opôs a um projeto de lei “mais radical” proposto na Flórida, pelo qual os alunos teriam a obrigação de ser certificados pela indústria. A entidade também se opõe a projetos de lei pelos quais cursos de programação poderiam valer como créditos de língua estrangeira nas escolas secundárias, ele disse. Mesmo assim, acrescentou, “consideramos que as empresas de tecnologia têm um papel a desempenhar, sim”.

A lei do Idaho entrou em vigor no ano passado. Um de seus primeiros resultados foi um novo programa, desenvolvido com a Oracle, para treinar professores do ensino público a ensinar os alunos sobre o Java, a popular linguagem de codificação da Oracle. Outras empresas, incluindo a fabricante de chips Micron Technology, foram convidadas a ajudar a traçar padrões de ciência da computação para as escolas do Estado.

“Algumas pessoas vão pensar que é a indústria que vai fazer nosso sistema de ensino avançar, e esse não é o caso, de maneira alguma”, disse Angela Hemingway, diretora executiva do Centro de Ação STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática, em inglês) do Idaho, que comanda a iniciativa estadual de ensino de ciência da computação. “As empresas são nossas parceiras colaborativas.”

É verdade que muitos estudantes em todo o país, além de seus pais, estão pedindo aulas de ciência da computação. Mas o que vai acontecer se outra disciplina –por exemplo a ciência de dados (que envolve a computação) – tornar-se mais importante e relevante às vidas, carreiras e comunidades dos estudantes?

Os grandes personagens a favor da ciência da computação quase barraram uma discussão sobre o lançamento de uma gama de novas disciplinas pelas escolas para garantir o preparo de seus alunos. E ganharam precedência sobre a discussão que procura discernir se os estudantes estariam mais bem servidos caso as escolas modificassem as aulas tradicionais de matemática para aumentar o destaque de campos como a estatística.

Smith, da Microsoft, disse que as empresas de tecnologia e entidades filantrópicas apenas querem dar voz a uma disciplina que não recebe a atenção que merece. “O que precisamos realmente é de um debate nacional sobre as disciplinas intelectuais que serão fundamentais para o futuro dos estudantes”, disse Smith. “É uma gama grande, não uma disciplina única.”

Partovi concordou. “Discutimos muito neste país sobre como ensinar”, ele disse, “mas não debatemos suficientemente o que deve ser ensinado.”

Com pesquisa de Doris Burke.

Tradução de CLARA ALLAIN

Endereço da página:
http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2017/07/1898089-como-o-vale-do-silicio-levou-a-sala-de-aula-aprogramacao-de-computadores.shtml

Links no texto:
Timothy Cook
http://www1.folha.uol.com.br/tec/2014/02/1407374-executivos-da-apple-discutem-aplicativos-medicos.shtml

Donald Trump
http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2017/06/1895454-historiador-escreve-20-licoes-para-evitarautoritarismo-de-trump.shtml

Code.org
http://www1.folha.uol.com.br/tec/2014/05/1456608-programacao-vira-disciplina-em-escolas-infantis-noseua.shtml

Swift Playgrounds
http://www1.folha.uol.com.br/tec/2016/06/1781307-pela-primeira-vez-apple-abre-acesso-a-assistente-virtualsiri-e-sistema-ios.shtml

Black Girls Code, Girls Who Code e Latina Girls
http://www1.folha.uol.com.br/tec/2015/03/1600530-iniciativas-tentam-acabar-com-disparidade-de-genero-natecnologia.shtml

acessível a estudantes de origens diversas
http://www1.folha.uol.com.br/tec/2015/11/1708447-garotas-criam-apps-para-mostrar-que-programacao-nao-ecoisa-so-de-menino.shtml

Fonte: Folha de São Paulo
http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2017/07/1898089-como-o-vale-do-silicio-levou-a-sala-de-aula-a-programacao-de-computadores.shtml

Folha de São Paulo



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